terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Lobo e a Lua (o canto e o brilho)


 O amor começou. Desconhecido. Bonito. Como o primeiro passo dado. Tornou-os conhecidos e amigos. Melhores amigos. Marcou encontros e permitiu a esperança pairar na floresta. Todas as noites eram especiais, e nenhum amanhecer era comum. O lobo uivava chamando o brilho da noite que ele amava. A lua surgia banhando a sua solidão em prata. Os dois trocavam olhares, harmonizavam sentimentos generosos e sentiam-se próximos através do mar. Era onde o lobo aguardava, e de onde a lua surgia todas as noites. Quanto mais brilhante, mais alto o uivo. Quanto maior, mais crescia a esperança de tocá-la um dia.



 Havia noites em que a lua não aparecia, e nesses momentos escuros a dúvida sobre o amor surgia. Eram horas de solidão, onde só o amor doído se sentia. Mas a novidade que ele nunca experimentou estava ali. Tudo o que o fazia cantar por longas noites, tudo o que o fazia esperar por longos dias. Era a primeira vez que se sentia tão vivo daquela forma, que uivava tão bravamente para mostrar o melhor que podia, e que acreditava em algo impossível como se fosse apenas questão permissível da natureza. Por isso a dúvida não o impediria de querer ser o melhor, não para os outros, mas para aquela que o olhava de forma diferente, que o banhava de uma prata paixão.

 Ouviu um dia boatos na floresta. Outro lobo havia conquistado o brilho da noite, do outro lado do oceano. Não podia acreditar, também não podia duvidar. Todos gostariam de ser parte da intensa luz que aquela única lua refletia. Sim, ela era única, mas parece ter se tornado igual. Não igual a outras luas inexistentes, mas igual a outros astros. Mesmo assim ele insistiu, e além de perceber a verdade dos fatos no seu brilho certa noite, ele perdoou. Foi graças a ele que naquela noite de um seco outono choveu. A lua chorou, e se deu conta de que nenhum outro lobo, ou qualquer outro animal, poderia fazê-la brilhar de forma tão autêntica e intensa.

 Diante do perdão e encanto que pode haver nesse tipo de atitude, a Lua fez uma promessa. Nada ou ninguém poderia motivá-la a trazer mais vida e brilho a todas as noites do mundo. Ela contaria as horas de onde estava para que fosse noite onde ele estava. Eles se encontrariam para sempre e, caso a natureza permitisse, um dia o lobo poderia habitar seu espaço, e fazer parte da sua luz de vez.

 Por longo tempo permaneceram assim. Foram cúmplices do que na noite ocorria. Ela sempre ouvia sobre o que no dia acontecia. Amavam-se, contemplavam-se à distância, perseverantes de um amor imenso como o mar que os separava. Então um dia o inverno tomou conta de tudo. O lobo se cansou por algum motivo, e parou de dar o seu melhor a quem merecia quando escureceu. A lua deixou a sua grandeza e brilho de lado, ofuscou-se. Até hoje não entendem a razão. Talvez a natureza quisesse assim. Mas um pouco daquele motivo de esperança ainda existia dentro dele, embora tentasse reconquistá-la, por anos a fio, em vão. Queria ser o motivo do melhor brilho que pudesse da única que amara até então. Lógica, ou ilogicamente, não obtivera sucesso...

 Em determinado nível de solidão o lobo percebeu que talvez ela houvesse encontrado outro melhor do que ele, ou simplesmente esquecido de sua existência. Não estava certo sobre isso, mas o que ele podia afirmar no seu canto de lamento pelas noites, a partir dessas hipóteses, é que o brilho dela havia mudado junto aos seus valores e motivos para iluminar as noites. Ele se desprendeu. Percebeu que havia tantos outros seres dispostos a conhecer o seu melhor. Sempre se lembraria dela, mas a lua não seria mais o seu motivo de uivar e bradar. O lobo e a lua se conheceriam melhor que qualquer astro ou ser vivo, para sempre. Por isso ele sabia que ela buscava nova cores e motivos para refletir e brilhar, por um tempo desconhecido senão pela natureza. E quanto a tudo o que sentiram um pelo outro, ninguém naquela floresta, ou em qualquer outro lugar, poderia ser capaz de dizer que não foi verdadeiro... Pois a teoria de uma antiga lenda sempre sustentará a veracidade da história.
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