quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Perseguindo a Névoa


 A pior sensação que existe é a de acordar de um pesadelo, desesperado, como se aquilo tivesse sido real. E duas noites atrás foi o que aconteceu comigo, porém de forma ainda mais tátil e assustadora. Do pesadelo tudo apagou. Acordei suando frio, mas o dia ainda não havia clareado. Na verdade ainda estava muito escuro. Quando me assentei na cama, percebi que não estava nela, mas sim em uma rua de pedras. ‘Será ainda um sonho?’ Pensei. Mas era tudo real demais para eu não estar acordado. O tudo era nada. Só era possível ver uma névoa acinzentada em meio à grande sombra que dominava aquele lugar. Tentei me deitar para voltar a dormir, dando um jeito de fugir daquela situação incomum, mas seria impossível com todas aquelas pedras desajustadas. Além do mais, se aquilo era mesmo um sonho, talvez fosse para me trazer mais profundamente à realidade do que aquela em que eu vivia. Constatei o que havia imaginado quando ouvi uma voz dizendo algo a mim, o que me fez ter a sensação mais estranha que já tive em toda a minha vida. Certo medo brotou dentro de mim e me conscientizou de que aquele lugar, aquela voz e os sentimentos que me provocavam eram mais que a realidade da forma que eu a conhecia. Tudo aquilo era, sem dúvida, a própria e genuína verdade. A estranha e pacífica voz disse, sussurrando: ‘Você precisa estar sozinho agora, mas independente do medo comum, não pare de caminhar em direção ao que você mais deseja. Você terá um momento para viver a realidade da forma como ela realmente é.

 O que comecei a sentir era mais temor do que medo. A vontade de permanecer ali era maior que qualquer impulso a fugir daquela voz, mesmo que me fizesse estremecer. Aquela escuridão era de fazer qualquer um chorar de medo, mas eu ainda não havia chegado a esse ponto, justamente porque pude sentir a presença que aquela voz possuía, poderosa o bastante para preencher qualquer vazio em que o medo pudesse entrar. Então perguntei de meio assustado: ‘Quem é você? Onde estou? O que estou fazendo aqui, e por que tenho essa leve sensação de solidão? ‘ A voz respondeu, fazendo-me sentir ainda menor e mais solitário, como alguém que não conhece nada sobre si mesmo: ‘ Eu sou alguém único, conhecido por você em parte e de forma humanamente limitada. Você está aqui porque suas escolhas o trouxeram até aqui. Essa é a realidade que você precisa conhecer. E você tem se sentido assim, pois é necessário se estar sozinho para conhecer as próprias necessidades, limites e objetivos, até que consiga firmar-se neles sem perder o foco.

 Assim que a voz respondeu minhas perguntas, foi como se ela desaparecesse, apesar de não possuir qualquer matéria que eu tenha visto ou tocado. Tive medo. Senti-me só, de verdade, por completo. Não tive reação além de refletir por alguns segundos, o que havia ouvido. Era muito para se pensar. Mas eu nem havia começado a refletir e, surpreendentemente, uma grande parede de concreto começou a desabar de um lado e de outro. Foi só então que percebi aquelas enormes paredes ali. O medo aumentou, impulsionando-me a levantar, e me pus a correr como nunca. A presença da voz ia e vinha. Ela dizia coisas do tipo ‘ Não pare. ‘‘ Não desista. ‘‘Você consegue resistir. ‘... E eu não parava de correr, enquanto barreiras apareciam a minha frente e grandes muros caíam atrás de mim. Foi então que eu percebi que eu podia enxergar no escuro. É muito fácil ver de olhos abertos, mas é na escuridão que aprendemos a enxergar. Deparei-me com um enorme precipício, e a névoa que me acompanhava desde o início acima de mim, sem eu percebê-la, se fez como ponte para que eu atravessasse aquele lugar horrível. Eu não tinha tempo para pensar o motivo de ela estar ali ou ter feito aquilo por mim. Tive que ir em frente, e acreditar que eu não cairia. Atravessei.

 Parei para respirar, pensar, ou algo que me colocasse no lugar certo. E a presença da voz havia voltado, daquela vez dizendo algo diferente do que eu estava ouvindo desde o início daquela estranha aventura: ‘Você pode sentir como se não tem mais forças, às vezes, mas você sempre será capaz, se acreditar no que eu estou lhe dizendo! Creia você ou não, você está correndo de desabamentos há dias. Aprendeu a dar passos no escuro, justamente porque tem dado atenção a cada palavra que digo e guardado em seu coração. Não deixe isso morrer! A partir de agora você tem um longo caminho de destruição à frente. Terá muitas barreiras, enormes, para derrubar e ir contra. Mantenha o foco na luz à frente!’ E assim que a voz mencionou a palavra luz, ela apareceu como mágica do tamanho de um vaga–lume, bem longe de onde eu me encontrava. Aquela presença que me fortalecia de uma maneira que eu nunca havia experimentado, continuou: ‘A luz que você vê é o que te motivará a continuar e acreditar que pode chegar até ela. O que brilha lá na frente é os seus maiores sonhos juntos ao seu propósito de vida. Não desvie o seu olhar em momento algum. E não desanime diante de qualquer barreira, independente do tamanho dela. Você vai sim sentir dores ou cansaço, mas qualquer impedimento é banal para aqueles que são feitos de fé. Creia. ‘ Como eu já esperava, ou não, a presença deixou de ser novamente.

 Logo que retomei a corrida, agora com um foco visível, os impedimentos começaram a aparecer. Primeiro foram passagens únicas, onde eu só podia atravessar arrastando. Depois tive que escalar e descer vários morros. Era difícil, não sabia se por motivos de fraqueza ou se por estar sozinho, mas eu mantive o ritmo que podia. Tentava tirar da minha mente todo e qualquer limite que eu conhecia de mim mesmo. Foi algo tão árduo, que eu sinto aquela sensação de desespero e esgotamento até hoje, de verdade. E é como se isso fosse durar para sempre dentro de mim. Por fim, chegando à etapa final de tudo aquilo, parei para ver com mais clareza o que havia na luz que eu perseguia. Observei, e me lembrei de coisas das quais havia desistido em minha vida. Sem que eu esperasse mais uma vez, algo surpreendente e fisicamente impossível aconteceu. Pequenos brilhos começaram a sair da luz e virem a mim, tão rápido que eu não podia acompanhá-los. Milhões deles grudaram em mim e me fizeram sentir como se algo ardesse interna e externamente, mas não me machucava. Lembrei-me que eu estava me tornando de fé, como a voz havia me dito. Então, impedindo meus pensamentos surpresos, grandes blocos de pedra começaram a vir em minha direção. Eles apareciam do nada, e eu podia ir de frente com todos eles, não importava o tamanho ou a consistência. Eu conseguia destruí-los sem que fosse necessário muito esforço, apenas crendo em tudo o que ouvi outrora. Talvez eu tenha trilhado essa parte por dias ou semanas... Houve momentos em que fui derrubado, que me machuquei, que as luzes em mim se apagaram por um tempo, mas eu mantive o meu foco na luz que se tornava cada vez maior e mais insuportável de olhar. Até que a luz foi me cegando, e os blocos pararam de aparecer. Fechei os meus olhos e caí ao chão. Comecei a chorar naquele momento. Nem tanto de fraqueza, mas por ter tido uma experiência tão densa, concreta e árdua. Senti que a luz perdera sua intensidade, então abri os olhos. A poderosa voz se fez presente novamente, mas daquela vez ela tinha forma. Abstrata, mas tinha. A voz pertencia à névoa, que todo tempo esteve comigo. Ela disse apenas ‘Parabéns, você conseguiu. Mesmo pensando que estava sozinho!’ e eu entendi tudo o que ela queria que eu entendesse, afinal, ela era a presença de todos os momentos. A voz me dizia o que eu devia escolher, ou pensar, e da forma como eu deveria agir. Toda vez que ela entrava em meus ouvidos, penetrava a minha memória com o que podia me dar a esperança que eu necessitava. Completando-a, a névoa foi a minha força, meu escudo, minha proteção. Eu me dei conta de que tudo o que eu acreditava na vida que vivia fora dali era naquela névoa, mesmo sem saber. Mas não cria o bastante até então. Por fim, a névoa me agradeceu por escolher acreditar, e completou: ‘Tudo o que você perseguiu até aqui não foram os seus sonhos, simplesmente. Eu era a luz também. Essa luz faz parte de mim. Muitos fogem da verdade porque se assustam com ela. Deixam o reflexo fazê-los esquecer que podem alcançar a liberdade que precisam no desconhecido... E você, foi um bom guerreiro. Não fugiu de mim. ‘ E assim que ela terminou de dizer tais palavras que me fizeram conhecê-la melhor, toda aquela luz foi sugada para dentro da névoa, e essa passou a habitar em mim. Foi aí que eu acordei assustado e aliviado ao mesmo tempo. Obviamente cansado também, mas pronto a encarar o resto da minha vida de forma diferente. Pois aquele dia, onde o sol já brilhava, seria o início de uma nova realidade para mim. De súbito, ouvi aquela voz já comum, no meu interior: ‘Haverão momentos em que você estará sozinho pra valer. Mas, mesmo que isso te machuque, permaneça forte e mantenha sua fé em chamas em seu interior. ‘ Eu estava pronto, então, para deixar de existir, e viver...

'... Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.' Fp 3.14
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