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quinta-feira, 9 de julho de 2015

A canção que nos pertence

Embora eu conte a história de uma amizade apenas, o texto a seguir é destinado a todos os meus amigos, em especial aos que se tornaram tais em nossa adolescência.

Nessa vida corriqueira com a qual nos acostumamos, há dias em que tudo parece desacelerar, sem mais nem menos, e um ar de nostalgia atinge em cheio o nosso peito. Respiramos com o ar pesado. Cada suspiro é uma lembrança diferente. E lembrar-se do que sente falta nunca é fácil.

Hoje foi um desses dias. Acordei no comum, mas isso mudou. Sem nenhum motivo especial, encontrei arquivos de vídeos antigos na internet, a partir de um ‘post de recordação’ da rede social, e passei da manhã à noite respirando memórias. Bom, talvez o meu subconsciente quisesse me lembrar de alguma coisa, um sentimento, uma escolha, um momento específico. Mas isso não passou de uma vaga hipótese durante todo o dia... Até que agora a pouco, a rede social (novamente) me lembrou de algo. Hoje é aniversário de um amigo. Um grande amigo do qual eu sinto bastante falta.

Thiago é um dos irmãos que a vida me deu a oportunidade de escolher. Esse amigo com quem já briguei, e briguei feio; com quem já chorei, sem que houvesse qualquer vergonha; com quem já disputei uma paixão na adolescência; com quem compartilhei (e fui) motivos pra rir, pra se chatear, pra explodir de raiva. Um amigo que fazia parte do melhor grupo de amigos de todos. Um amigo que virou personagem de livro e de série, junto a mim e aos outros. Thiago era o cara, embora eu jamais admitisse isso. O cara que era inspiração (não apenas pra mim) para sonhar, para ser um gentleman com as garotas (e galanteador haha), para refletir sobre o que é importante na vida. Esse cara que nunca teve medo de expor suas convicções, mesmo que se divergissem da maioria.


Sua amizade realmente é muito valiosa, e o mais inspirador nela é a forma como começou. Não é qualquer pessoa que você conhece e, de forma tão clara, Deus fala que essa amizade é um presente dEle... Como no livro de Samuel, capítulo 18, versículos de 1 a 5, onde Jônatas e Davi se tornam amigos. Bom, eu tinha 14 anos e ele 11 (mas agia e pensava como se tivesse mais). Nós nos conhecíamos há apenas algumas semanas e estávamos em um retiro da Igreja. Em um determinado momento, em que foi ministrada uma palavra específica a todo grupo que ali se encontrava, Deus me deixou bem claro que eu perderia algumas amizades pela escolha que eu estava fazendo em minha vida. E aquilo doeu. Pra caramba. Primeiro porque ninguém gosta de desfazer laços que, de alguma maneira, fazem bem, e segundo porque eu estava me tornando um adolescente, e com isso começando a desenvolver a técnica infeliz do acreditar que tudo durará para sempre. Enfim... Naquele mesmo momento, em que a verdade que eu soube me fez me sentir mal, Deus me trouxe outra verdade, da qual eu jamais me esqueceria: ‘Filho, não se preocupe, porque eu tenho o melhor para você. Você pode perder amizades das quais você gosta muito, mas eu tenho novos amigos para você, amigos que crescerão com você, e te ajudarão a se tornar quem Eu quero que você seja.’ E naquele momento, ao olhar para o meu lado direito, eu, que só estava naquela Igreja há algumas poucas semanas, pude ter a certeza de que um dia eu olharia para trás e saberia que pelo menos um amigo verdadeiro eu havia conhecido ali. Geralmente, um amigo encontra o outro, e muitas pessoas pensam ser destino, mas no nosso caso Deus presenteou nossa vida com um irmão de alma.

Caramba, eu não pretendia falar tanto! Mas histórias carregadas de verdade devem ser contadas. É por isso que escrevi um livro, enfim... Talvez só o post já seja um presente de aniversário pra esse cara que, eu mal posso acreditar, já está fazendo 23. E continua cantando a mesma canção, da mudança pela mudança, pelo prazer de viver, pelos dramas e comédias e aventuras e desventuras que só a escolha da mudança pode realizar. De qualquer forma, eu preciso concluir esse texto com uma reflexão que esse dia, e essas memórias, me trouxeram. 
  •      Então, cara, às vezes eu fico me perguntando o que foi que 'deu errado' no meio da história; qual o motivo de hoje ser tudo tão diferente do que era antes. Sabe, não só de como costumávamos ser, mas da forma como acreditávamos que tudo aquilo duraria. A gente vai vivendo e percebendo que grande parte das convicções que tínhamos na fase adolescente fica para trás com ela, ou amadurece em nós caso permitimos. E é impressionante o fato de que as coisas realmente passam, sempre mudam e simplesmente deixam de ser, sem que a gente nem mesmo perceba esse processo. Então, mais uma vez, fica a questão: Quando foi que essa canção começou? A canção da mudança. A canção que você sempre venerou; que eu sempre repudiei. Quando foi que nossos olhos se fecharam e não vimos mais o tempo passar, os amigos se afastarem e as coisas mudarem? Você, meu caro amigo, ensinou muita gente a dançar ao som da canção, mas talvez não tenha se dado conta e percebido o momento certo de parar a música para reaver os detalhes que haviam desaparecido. São muitos questionamentos que as lembranças trazem, mas elas também deixam uma certeza: Por mais que tenhamos nascido para cantar, de maneiras diferentes, a mesma canção; ainda que algumas notas sejam mais difíceis de serem alcançadas do que outras; mesmo que as letras se transformem com o tempo e a gente se perca em uma ou outra performance importante; eu sei irmão, nós sabemos, que ainda estamos juntos. E apesar da distancia, e das vidas tão diferentes, eu amo você, meu irmão!
"Você vai olhar para as suas fotos e perceber o quão vulnerável é. O tempo não é de ninguém, mas os relacionamentos que você constrói, sim."


quarta-feira, 23 de abril de 2014

O homem, sua essência e seu destino

O homem tem receio do que ele mais anseia, ainda que não conheça tal desejo. Ele talvez fuja do peso de um dia ser perfeito, completo, totalmente luz e totalmente amor. Entrega-se à fuga de sua própria essência dia após dia, em direção ao escuro, à indiferença, à doença do amor próprio exacerbado. Vê-se mais distante de si mesmo tornando-se mais próximo àquilo que é surreal. Sua dádiva esquecida, seu legado abandonado. A tristeza que o afeta cada vez que recosta a cabeça no travesseiro, a dor que o aperta cada vez que se vê sozinho, o medo que o acerta cada vez que tenta fixar os olhos à frente...

Pela falta de confiança afugenta dos seus dons e se esquece do seu dono. O homem que tem sede de vingança, na verdade tem sede de justiça. O homem que se arrisca na perdição de fato não conhece mais o caminho de onde se perdeu. Suas voltas em torno dos próprios desejos o levam para o mesmo fim, e sua confiança no enganoso coração o derruba sem que ele perceba. Quando consegue enxergar se dá conta de que foi levado para longe do propósito, longe do sentido real de sua existência. O homem foi criado para encontrar-se com seu Criador. Ele não pertence à dor, não pertence ao falso sorriso que seu coração maquila, muito menos à irracionalidade com que escolhe seus passos, palavras e pensamentos. O homem é o sonho mais incrível de Deus. Sonho concebido a partir de um desejo imensurável e incompreendido por limitações humanas, com a finalidade de reverenciar Aquele que o criou na simplicidade de ser ele mesmo. Homem tão fraco que foi criado pela maior força, mas se entrega ao perigo de se enfraquecer em sua natureza redimida e se confundir na mistura entre duas paixões. Esquece que é feito luz, feito amor, ainda imperfeitos, no entanto a caminho da perfeição.

Tudo o que o homem precisa é desvendar os olhos, enxergar a possibilidade para o qual foi formado e se entregar à liberdade verdadeira, não àquela que o torna dependente da sujeira para viver de forma aparente até morrer. O homem é gota que se dissipa nessa Terra, que se receia pelo seu fim, sem saber que a finalidade é tudo o que ele mais deseja. O homem que segue seu percurso em genuína liberdade e entrega, flui e corre como um rio sendo atraído pelo mar aberto. Seu fim é o seu criador. O destino do rio é o grande oceano, de quem teve certo medo, mas onde se torna completa perfeição. Um dia o rio fará parte do oceano, ou do abismo, e a escolha de ser verdadeiramente livre terá feito toda a diferença.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O começo de algo incrível

 A garota tem um coração invisível, que está ferido, perdido, e não consegue perceber o caminho que a levará mais longe bem a sua frente. Caminho guiado pelo garoto, até então dono de um coração cheio de orgulho, mas agora disposto a lutar o necessário para fazê-la sentir e descobrir o que, provavelmente, ela nunca tenha sentido. Para ela nunca foi fácil acreditar nas palavras, num abraço ou em um beijo carinhoso...



- Não se pode pegar o coração de alguém, sem ter a mínima ideia de como vai segurá-lo, cuidar dele, fazê-lo feliz. Como eu vou confiar no amor?

- Você só pode amar se estiver de olhos bem fechados, pois para entregar o coração a alguém, você deve parti-lo... Quem confia sabe que o outro pode ferir sem querer, mas que é exatamente o responsável pela ferida, o único que poderá curá-la.

Confusa, ela diz: - É difícil, muito difícil para mim. Ainda não sei se estou pronta...

E ele disposto a ACREDITAR, responde: - Tudo bem, eu entendo. Só quero que saiba que, quando perceber que existem coisas permanentes na vida, eu ainda estarei aqui, segurando a sua mão. Sei que, às vezes, dá um pouco de medo e receio por não saber o que vem pela frente a partir de uma decisão, mas eu descobri que o amor vale qualquer risco e qualquer dor. A partir de então, decidi ferir o meu orgulho, limpar toda dor que nele havia, cobri-lo de amor, e entregá-lo a quem viria...

quarta-feira, 15 de maio de 2013

SMS


 Era tarde de domingo, o cansaço predominava meu corpo e minha mente. Eu não fazia ideia da surpresa, maior de todas nos últimos anos, que chegaria até mim depois de longa caminhada carregando dúvidas pesadas e amargos remorsos. Meu celular vibrou, e desse motivo eu jamais me esquecerei, o qual permitiu que meu coração pudesse também vibrar novamente. Uma mensagem de texto chegou como se sua intenção fosse me renovar por inteiro, e me fazer lembrar as razões as quais eu esperava por tanto tempo encontrar. Ouvi a voz da garota que tem se tornado especial, dizendo pela mensagem tudo o que eu gostaria de ouvir, embora não estivesse procurando: ‘De longe estou com você. Espero pelo cara que você quer se tornar para mim. ’

 Minha reação não ocorreu do lado de fora, apesar dos olhos fixados na tela do celular, mas em meu coração foi como se eu tivesse encontrado uma pequena fonte de água em um deserto onde eu nem fazia idéia que me encontrava. Aquelas palavras me fizeram dar conta do frio que eu sentia a noite, bem como o calor que me sufocava durante os dias. Era como se eu estivesse com um joelho ralado por muito tempo, após me machucar com uma atitude impensada, e ela viesse com um curativo antes que eu percebesse a ferida que havia em mim.

  Eu fiquei paralisado por alguns minutos, sem pensar nada, só sentindo meu coração bater como não batia há muito. Culpava-me por não ter percebido antes aquela companhia, aquele sorriso, e tudo o que ela me proporcionava ainda que eu não desse o valor merecido. Então, resolvi responder. Mas eu simplesmente não conseguia, embora quisesse, dizer mais que ‘obrigado’. Pensei mais um pouco, e vi que eram necessárias mais palavras, pois há momentos em que jogamos palavras fora por não acreditarmos no potencial que elas podem ter ao alcançarem seu destino, e eu não queria desperdiçar as que me vinham à mente naquele instante: ‘Acabamos de nos ver nessa manhã. Por que não me disse o que sempre quis pessoalmente? Hoje talvez, ou desde que começou a sentir o inesperado?’

  Então, depois de cinco minutos eternos, a resposta veio como uma bala de borracha em meu coração, pois por mais que doesse, sabia que ela não teve a intenção de me machucar, mas de me abrir os olhos dos sentimentos e da razão: ‘Eu já tentei dizer, mas sempre senti como se você fugisse de mim, ou me afastasse de você, mesmo que sutilmente. Você sempre me pareceu não ter olhos para me ver como alguém que te ama, ou que te merece, eu não sei. E embora eu me apaixone cada dia mais por quem você tem escolhido se tornar, meu respeito pelos seus sentimentos é maior. É algo que nunca senti antes por alguém além de mim mesma, mas é justamente como vou aprendendo a lidar que sobrevivo. Sentir a dor das minhas feridas por estar longe não é tão árduo quanto ver o seu semblante triste que revela um coração perdido e frustrado. Eu sempre acreditei que a maior característica de alguém que ama pra valer é saber esperar que o coração perdido do outro encontre um caminho até a pessoa mais digna de tê-lo. Eu amo você há algum tempo. Eu respeito você desde que nos conhecemos. Eu tenho esperado por você pelo tempo que for preciso... ’

 Eu não tinha nada a dizer diante daquilo, mas tinha muito a fazer. Levantei-me de onde me achava confortável, peguei a chave do carro e resolvi surpreendê-la. Não tinha certeza do que estava fazendo, mas anos se passaram sem que eu cometesse uma loucura com risco de me arrepender. Eu precisava daquilo. A caminho da casa dela eu pensava no que ainda não existia, e que de certa forma passei a desejar com fervor havia minutos antes. Fiquei com saudade de momentos que já sonhei um dia. Passei a ter vontade de sentir a certeza novamente. Foi o momento sozinho mais incrível que já havia vivido, pois dessa vez a diferença com outros momentos parecidos era que eu ainda não tinha certeza de nada. Nada além de uma sensação de liberdade, de complemento, de sentir-me vivo novamente. E sem mais nem menos, como se Deus quisesse me alegrar ainda mais com surpresas que só Ele dá, uma chuva calma e apaixonante começou a cair. Eu já estava chegando a casa dela, rindo tanto de nervosismo como por lembrar que o meu desejo um dia houvera sido que a chuva caísse exatamente daquela forma, pra que eu pudesse beijar a garota que eu amava, demonstrando algo além da superfície, mais além da paixão.


 Minutos depois estava eu em seu portão esperando ela abri-lo. Ela ficou surpresa, como eu esperava, com a mensagem pedindo para me atender ali em baixo. E quando ela abriu o portão de sua casa, lá estava eu, encharcado, com o sorriso mais sincero que ela já vira em mim. Então ela, sorrindo também, inevitavelmente perguntou: ‘Por que você veio até aqui? Por que está com essa cara de bobo e esse sorriso?’ Sem pensar muito, respondi: ‘Por que eu consegui enxergar que você vale a pena, mesmo sem ter procurado por alguém como você. E estou sorrindo porque é natural alguém olhar-se no espelho e ver os melhores motivos refletidos a sua frente. Eu não vou ser tão tolo a ponto de dizer tão certamente que você é a garota por quem eu procurava que é pra sempre, que eu amo você, ou outros clichês. Mas há coisas que eu posso afirmar: Você me fez sentir o que eu não sinto há anos. Você me fez enxergar que, não importa quanto tempo procuramos por curar nosso coração, um dia encontramos a cura e a liberdade dele em quem menos esperamos. E eu posso não estar bem certo, mas talvez seja mesmo você. Eu quero que seja você. Quero acreditar no talvez como sendo verdade, afinal, somos nós que escolhemos as nossas verdades para amar e nos acompanhar... Por fim, quero que você saiba que, mesmo errando, eu quero correr o risco com você. Pelo menos eu terei você para contemplar, e você terá o meu sorriso de volta. ‘ Ela deixou algumas lágrimas se misturarem com o seu lindo sorriso. Abraçou-me de uma forma que me fez acreditar que guardava aquele abraço só para mim. Então eu a beijei, sem me arrepender, pois eu guardava o meu melhor para a nova certeza que esperava encontrar...


segunda-feira, 4 de março de 2013

1 de Março, 2013

 Já havia muito tempo que o tempo estava quente. Quente e seco. Enquanto eu reaprendia a respirar, sem sufocar, lutava contra a vontade de reclamar, insatisfeito. Não gostava do clima, do excesso de calor, da falta de umidade. Orei por longos meses. Meses que foram anos. Confesso que várias vezes me cansei, parei, pensei em desistir, mas algo em mim apontava para a esperança pelo que eu acreditava. Eu não apenas queria. Eu precisava. Tudo em mim clamava por água. Meu corpo ansiava por dançar na chuva, encharcar a roupa, regar a pele.

 As nuvens vinham, pingavam sua dose e se dissipavam. Desapareciam logo quando eu começava a amar os dias nublados. Mas eu precisava do permanente, da certeza de que minha sede seria suprida constantemente. Continuei acreditando, esperando, honrando a minha fé no que outrora eu já havia sentido. Então, repentinamente, depois de verões e invernos que não apontavam para nenhuma direção, após nuvens carregadas daquilo que parecia passageiro, o carnaval passou. A dor da alegria plastificada em máscaras se foi. O suor secou. O meu corpo logo se molharia de água do céu.

 A chuva caiu com vontade. Chegou repentina e me lavou a alma. Águas de março que me regaram os olhos, e nelas percebo certa intenção de plantarem em mim sentimentos dos quais eu nem me lembrava como soavam aqui dentro. As novas águas molham o campo de terra árida, quase desacreditada, dada como fértil. E o mais bonito, garota, é que toda essa história é linguagem figurada. Você é a tempestade e eu o copo d'água. Você é a chama e eu a fogueira. Você é o anel e eu o dedo anelar. Finalmente, as águas dessa chuva é você, e a terra não mais árida o meu coração. O amor pode estar nascendo, você consegue ver uma flor se abrindo?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Lobo e a Lua (o canto e o brilho)


 O amor começou. Desconhecido. Bonito. Como o primeiro passo dado. Tornou-os conhecidos e amigos. Melhores amigos. Marcou encontros e permitiu a esperança pairar na floresta. Todas as noites eram especiais, e nenhum amanhecer era comum. O lobo uivava chamando o brilho da noite que ele amava. A lua surgia banhando a sua solidão em prata. Os dois trocavam olhares, harmonizavam sentimentos generosos e sentiam-se próximos através do mar. Era onde o lobo aguardava, e de onde a lua surgia todas as noites. Quanto mais brilhante, mais alto o uivo. Quanto maior, mais crescia a esperança de tocá-la um dia.



 Havia noites em que a lua não aparecia, e nesses momentos escuros a dúvida sobre o amor surgia. Eram horas de solidão, onde só o amor doído se sentia. Mas a novidade que ele nunca experimentou estava ali. Tudo o que o fazia cantar por longas noites, tudo o que o fazia esperar por longos dias. Era a primeira vez que se sentia tão vivo daquela forma, que uivava tão bravamente para mostrar o melhor que podia, e que acreditava em algo impossível como se fosse apenas questão permissível da natureza. Por isso a dúvida não o impediria de querer ser o melhor, não para os outros, mas para aquela que o olhava de forma diferente, que o banhava de uma prata paixão.

 Ouviu um dia boatos na floresta. Outro lobo havia conquistado o brilho da noite, do outro lado do oceano. Não podia acreditar, também não podia duvidar. Todos gostariam de ser parte da intensa luz que aquela única lua refletia. Sim, ela era única, mas parece ter se tornado igual. Não igual a outras luas inexistentes, mas igual a outros astros. Mesmo assim ele insistiu, e além de perceber a verdade dos fatos no seu brilho certa noite, ele perdoou. Foi graças a ele que naquela noite de um seco outono choveu. A lua chorou, e se deu conta de que nenhum outro lobo, ou qualquer outro animal, poderia fazê-la brilhar de forma tão autêntica e intensa.

 Diante do perdão e encanto que pode haver nesse tipo de atitude, a Lua fez uma promessa. Nada ou ninguém poderia motivá-la a trazer mais vida e brilho a todas as noites do mundo. Ela contaria as horas de onde estava para que fosse noite onde ele estava. Eles se encontrariam para sempre e, caso a natureza permitisse, um dia o lobo poderia habitar seu espaço, e fazer parte da sua luz de vez.

 Por longo tempo permaneceram assim. Foram cúmplices do que na noite ocorria. Ela sempre ouvia sobre o que no dia acontecia. Amavam-se, contemplavam-se à distância, perseverantes de um amor imenso como o mar que os separava. Então um dia o inverno tomou conta de tudo. O lobo se cansou por algum motivo, e parou de dar o seu melhor a quem merecia quando escureceu. A lua deixou a sua grandeza e brilho de lado, ofuscou-se. Até hoje não entendem a razão. Talvez a natureza quisesse assim. Mas um pouco daquele motivo de esperança ainda existia dentro dele, embora tentasse reconquistá-la, por anos a fio, em vão. Queria ser o motivo do melhor brilho que pudesse da única que amara até então. Lógica, ou ilogicamente, não obtivera sucesso...

 Em determinado nível de solidão o lobo percebeu que talvez ela houvesse encontrado outro melhor do que ele, ou simplesmente esquecido de sua existência. Não estava certo sobre isso, mas o que ele podia afirmar no seu canto de lamento pelas noites, a partir dessas hipóteses, é que o brilho dela havia mudado junto aos seus valores e motivos para iluminar as noites. Ele se desprendeu. Percebeu que havia tantos outros seres dispostos a conhecer o seu melhor. Sempre se lembraria dela, mas a lua não seria mais o seu motivo de uivar e bradar. O lobo e a lua se conheceriam melhor que qualquer astro ou ser vivo, para sempre. Por isso ele sabia que ela buscava nova cores e motivos para refletir e brilhar, por um tempo desconhecido senão pela natureza. E quanto a tudo o que sentiram um pelo outro, ninguém naquela floresta, ou em qualquer outro lugar, poderia ser capaz de dizer que não foi verdadeiro... Pois a teoria de uma antiga lenda sempre sustentará a veracidade da história.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Perseguindo a Névoa


 A pior sensação que existe é a de acordar de um pesadelo, desesperado, como se aquilo tivesse sido real. E duas noites atrás foi o que aconteceu comigo, porém de forma ainda mais tátil e assustadora. Do pesadelo tudo apagou. Acordei suando frio, mas o dia ainda não havia clareado. Na verdade ainda estava muito escuro. Quando me assentei na cama, percebi que não estava nela, mas sim em uma rua de pedras. ‘Será ainda um sonho?’ Pensei. Mas era tudo real demais para eu não estar acordado. O tudo era nada. Só era possível ver uma névoa acinzentada em meio à grande sombra que dominava aquele lugar. Tentei me deitar para voltar a dormir, dando um jeito de fugir daquela situação incomum, mas seria impossível com todas aquelas pedras desajustadas. Além do mais, se aquilo era mesmo um sonho, talvez fosse para me trazer mais profundamente à realidade do que aquela em que eu vivia. Constatei o que havia imaginado quando ouvi uma voz dizendo algo a mim, o que me fez ter a sensação mais estranha que já tive em toda a minha vida. Certo medo brotou dentro de mim e me conscientizou de que aquele lugar, aquela voz e os sentimentos que me provocavam eram mais que a realidade da forma que eu a conhecia. Tudo aquilo era, sem dúvida, a própria e genuína verdade. A estranha e pacífica voz disse, sussurrando: ‘Você precisa estar sozinho agora, mas independente do medo comum, não pare de caminhar em direção ao que você mais deseja. Você terá um momento para viver a realidade da forma como ela realmente é.

 O que comecei a sentir era mais temor do que medo. A vontade de permanecer ali era maior que qualquer impulso a fugir daquela voz, mesmo que me fizesse estremecer. Aquela escuridão era de fazer qualquer um chorar de medo, mas eu ainda não havia chegado a esse ponto, justamente porque pude sentir a presença que aquela voz possuía, poderosa o bastante para preencher qualquer vazio em que o medo pudesse entrar. Então perguntei de meio assustado: ‘Quem é você? Onde estou? O que estou fazendo aqui, e por que tenho essa leve sensação de solidão? ‘ A voz respondeu, fazendo-me sentir ainda menor e mais solitário, como alguém que não conhece nada sobre si mesmo: ‘ Eu sou alguém único, conhecido por você em parte e de forma humanamente limitada. Você está aqui porque suas escolhas o trouxeram até aqui. Essa é a realidade que você precisa conhecer. E você tem se sentido assim, pois é necessário se estar sozinho para conhecer as próprias necessidades, limites e objetivos, até que consiga firmar-se neles sem perder o foco.

 Assim que a voz respondeu minhas perguntas, foi como se ela desaparecesse, apesar de não possuir qualquer matéria que eu tenha visto ou tocado. Tive medo. Senti-me só, de verdade, por completo. Não tive reação além de refletir por alguns segundos, o que havia ouvido. Era muito para se pensar. Mas eu nem havia começado a refletir e, surpreendentemente, uma grande parede de concreto começou a desabar de um lado e de outro. Foi só então que percebi aquelas enormes paredes ali. O medo aumentou, impulsionando-me a levantar, e me pus a correr como nunca. A presença da voz ia e vinha. Ela dizia coisas do tipo ‘ Não pare. ‘‘ Não desista. ‘‘Você consegue resistir. ‘... E eu não parava de correr, enquanto barreiras apareciam a minha frente e grandes muros caíam atrás de mim. Foi então que eu percebi que eu podia enxergar no escuro. É muito fácil ver de olhos abertos, mas é na escuridão que aprendemos a enxergar. Deparei-me com um enorme precipício, e a névoa que me acompanhava desde o início acima de mim, sem eu percebê-la, se fez como ponte para que eu atravessasse aquele lugar horrível. Eu não tinha tempo para pensar o motivo de ela estar ali ou ter feito aquilo por mim. Tive que ir em frente, e acreditar que eu não cairia. Atravessei.

 Parei para respirar, pensar, ou algo que me colocasse no lugar certo. E a presença da voz havia voltado, daquela vez dizendo algo diferente do que eu estava ouvindo desde o início daquela estranha aventura: ‘Você pode sentir como se não tem mais forças, às vezes, mas você sempre será capaz, se acreditar no que eu estou lhe dizendo! Creia você ou não, você está correndo de desabamentos há dias. Aprendeu a dar passos no escuro, justamente porque tem dado atenção a cada palavra que digo e guardado em seu coração. Não deixe isso morrer! A partir de agora você tem um longo caminho de destruição à frente. Terá muitas barreiras, enormes, para derrubar e ir contra. Mantenha o foco na luz à frente!’ E assim que a voz mencionou a palavra luz, ela apareceu como mágica do tamanho de um vaga–lume, bem longe de onde eu me encontrava. Aquela presença que me fortalecia de uma maneira que eu nunca havia experimentado, continuou: ‘A luz que você vê é o que te motivará a continuar e acreditar que pode chegar até ela. O que brilha lá na frente é os seus maiores sonhos juntos ao seu propósito de vida. Não desvie o seu olhar em momento algum. E não desanime diante de qualquer barreira, independente do tamanho dela. Você vai sim sentir dores ou cansaço, mas qualquer impedimento é banal para aqueles que são feitos de fé. Creia. ‘ Como eu já esperava, ou não, a presença deixou de ser novamente.

 Logo que retomei a corrida, agora com um foco visível, os impedimentos começaram a aparecer. Primeiro foram passagens únicas, onde eu só podia atravessar arrastando. Depois tive que escalar e descer vários morros. Era difícil, não sabia se por motivos de fraqueza ou se por estar sozinho, mas eu mantive o ritmo que podia. Tentava tirar da minha mente todo e qualquer limite que eu conhecia de mim mesmo. Foi algo tão árduo, que eu sinto aquela sensação de desespero e esgotamento até hoje, de verdade. E é como se isso fosse durar para sempre dentro de mim. Por fim, chegando à etapa final de tudo aquilo, parei para ver com mais clareza o que havia na luz que eu perseguia. Observei, e me lembrei de coisas das quais havia desistido em minha vida. Sem que eu esperasse mais uma vez, algo surpreendente e fisicamente impossível aconteceu. Pequenos brilhos começaram a sair da luz e virem a mim, tão rápido que eu não podia acompanhá-los. Milhões deles grudaram em mim e me fizeram sentir como se algo ardesse interna e externamente, mas não me machucava. Lembrei-me que eu estava me tornando de fé, como a voz havia me dito. Então, impedindo meus pensamentos surpresos, grandes blocos de pedra começaram a vir em minha direção. Eles apareciam do nada, e eu podia ir de frente com todos eles, não importava o tamanho ou a consistência. Eu conseguia destruí-los sem que fosse necessário muito esforço, apenas crendo em tudo o que ouvi outrora. Talvez eu tenha trilhado essa parte por dias ou semanas... Houve momentos em que fui derrubado, que me machuquei, que as luzes em mim se apagaram por um tempo, mas eu mantive o meu foco na luz que se tornava cada vez maior e mais insuportável de olhar. Até que a luz foi me cegando, e os blocos pararam de aparecer. Fechei os meus olhos e caí ao chão. Comecei a chorar naquele momento. Nem tanto de fraqueza, mas por ter tido uma experiência tão densa, concreta e árdua. Senti que a luz perdera sua intensidade, então abri os olhos. A poderosa voz se fez presente novamente, mas daquela vez ela tinha forma. Abstrata, mas tinha. A voz pertencia à névoa, que todo tempo esteve comigo. Ela disse apenas ‘Parabéns, você conseguiu. Mesmo pensando que estava sozinho!’ e eu entendi tudo o que ela queria que eu entendesse, afinal, ela era a presença de todos os momentos. A voz me dizia o que eu devia escolher, ou pensar, e da forma como eu deveria agir. Toda vez que ela entrava em meus ouvidos, penetrava a minha memória com o que podia me dar a esperança que eu necessitava. Completando-a, a névoa foi a minha força, meu escudo, minha proteção. Eu me dei conta de que tudo o que eu acreditava na vida que vivia fora dali era naquela névoa, mesmo sem saber. Mas não cria o bastante até então. Por fim, a névoa me agradeceu por escolher acreditar, e completou: ‘Tudo o que você perseguiu até aqui não foram os seus sonhos, simplesmente. Eu era a luz também. Essa luz faz parte de mim. Muitos fogem da verdade porque se assustam com ela. Deixam o reflexo fazê-los esquecer que podem alcançar a liberdade que precisam no desconhecido... E você, foi um bom guerreiro. Não fugiu de mim. ‘ E assim que ela terminou de dizer tais palavras que me fizeram conhecê-la melhor, toda aquela luz foi sugada para dentro da névoa, e essa passou a habitar em mim. Foi aí que eu acordei assustado e aliviado ao mesmo tempo. Obviamente cansado também, mas pronto a encarar o resto da minha vida de forma diferente. Pois aquele dia, onde o sol já brilhava, seria o início de uma nova realidade para mim. De súbito, ouvi aquela voz já comum, no meu interior: ‘Haverão momentos em que você estará sozinho pra valer. Mas, mesmo que isso te machuque, permaneça forte e mantenha sua fé em chamas em seu interior. ‘ Eu estava pronto, então, para deixar de existir, e viver...

'... Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.' Fp 3.14

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dias de Verão em Vitória (Introdução)


 Manhã acinzentada. Nem nublada, nem ensolarada. Apenas um pouco de esperança que tínhamos em fazer a viagem dos nossos sonhos. E aquela seria a oportunidade (pensamos). Maitê, Rafa, Walner e eu sonhávamos com aquelas viagens de filmes, em que um grupo de jovens amigos está junto em um carro conversível ouvindo boas músicas, com o vento batendo forte nos rostos que carregam óculos escuros estilosos, numa estrada em direção à praia de Malibu. Mas a realidade é BEM OPOSTA ao sonho, e a diferença sempre está nos pequenos detalhes importantes: Estávamos juntos, o quarteto (de idiotas e loucos), porém não tínhamos carro (nem um fusca, quanto mais um conversível) e iríamos de trem. Maldito trem. Não usamos óculos escuros e nem sentimos o vento bater no rosto. O que sentimos foi calor e frio, pelos raios solares que entravam pela janela e a alta temperatura do ar condicionado ligado. Além do mais não víamos estrada alguma, apenas mato, serras, e mais mato além do trilho do trem (AQUELES QUE NOS ACONSELHARAM A IR DE TREM POR SER LINDA A VISTA DURANTE A VIAGEM AINDA ACORDARÃO COM A BOCA CHEIA DE FORMIGA)... Mais um detalhe, talvez o mais importante e entediante: Dá-se ao fato de que a trajetória da viagem de carro dura por volta de 7 horas, e nós ficamos entre vagões (como sardinhas) por 13 horas (quase o dobro), quase uma vida! Aliás, fiquei imaginando como eu chegaria ao destino. Morto, em outra vida, ou sem amigos, pois o Walner seria o primeiro a partir por motivos de gordura máxima, a Rafa tão cedo quanto por falta do que o Walner tinha de sobra, e a Maitê de tristeza por sofrer tanto bullying pela forma como saía nas fotos...

 Tudo bem. Sobrevivemos. Quase, pelo menos. Porque o tédio, pra quem não sabe, pode matar, o pó de minério pode nos sufocar e a comida do que chamam de lanchonete do trem pode (sempre) estar envenenada. E nesse caso último eu seria o primeiro a morrer, pois vamos combinar que é difícil encontrar alguém que aceite qualquer tipo de comida como eu. Enfim, ouvimos música individualmente (coisa mais sem graça), cada um em seu celular, tentamos jogar UNO na mesa da lanchonete, mas não era permitido qualquer tipo de jogo ali (disse o garçom). Logo pensamos: Que m***a é essa? Estamos apostando nossas vidas aqui? Como é que funciona isso? Por quê? Fomos então voltar aos nossos lugares, e inventamos um tipo de jogo (Walner inventou). Jogo das palavras... (Eu não acredito nisso) Tente jogar com seus amigos e a única coisa que vai beneficiar o grupo será a facilidade que vocês terão em descobrir quem é o mais idiota. Diga uma palavra, e o restante deve dizer palavras que tenham alguma ligação com a primeira dita. Isso mesmo que você, leitor, está pensando... Que m***a de brincadeira é essa??? Mas não foi você que foi obrigado a ter esse tipo de idéia pela circunstância de estar em um local fechado durante 13h. CLAUSTROFOBIA, QUASE ISSO.

 Enfim, chegamos ao destino. E de repente bateu o medo: ' - QUEM SÃO AS PESSOAS QUE IRÃO NOS HOSPEDAR?' Tudo bem, esqueci de mencionar aqui, mas nós, de BH, não conhecíamos aqueles de Vitória, a não ser pelo falecido ORKUT (que deus o tenha). Não tínhamos visto uns aos outros pessoalmente por mais de algumas poucas horas no congresso em nossa igreja, há um ano e meio antes daquela viagem. O MEDO ERA DE NOS SEQUESTRAREM! Sério, não estou brincando. Confiar no mundo de hoje NÃO TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM! Mas éramos mais loucos que medrosos, então ligamos para os nossos conhecidos e hospitaleiros (que medo). Ficamos ali no estacionamento da ferroviária por, mais ou menos, 1 hora comendo um pacote de DORITOS que estava temperado com muito minério. NÓS estávamos temperados de minério. Era tacar água que poderíamos ser considerados fontes de petróleo. Anyway...

 De repente, quando estávamos quase babando de cansaço, eis que surge uma voz através de um MEGA-FONE. Isso mesmo, Júnior e Rafaela chegam gritando por mineiros com um MEGA-FONE! Vamos pegar o trem de volta, e eles nem vão nos ver (pensamos), mas era tarde demais quando aquele mini-homem Júnior me viu e veio em minha direção para dar um abraço. Resolvi ceder, e vingar o mega-fone com bastante minério. Foi uma boa recepção, mas não acabou por aí... Eles nos levaram para a Igreja antes de ir pra casa. PAUSA DRAMÁTICA (...) mais drama (...) e um pouco mais (...) – VELHO, estávamos indo pra Igreja onde todos estariam para receber um quarteto de ZUMBIS! O jeito era fingir que não estávamos sujos, aliás, quem estava sujo mesmo? (Foi assim que agimos). Ficamos esperando o culto acabar, com as malas na porta da igreja. Depois pediram para que o Walner e eu dançássemos uma coreografia do nosso ministério. E pra ser bem sincero, eu achei que partes do meu corpo cairiam naquele momento. Logo depois fomos levados a casa onde fomos MUITO BEM RECEPCIONADOS pela querida Jack, mãe de Amanda e Wilbert.
Precisávamos comer e fomos ao QUINTURAS, quase um KiMala de BH. Era isso... Nosso primeiro dia estava finalmente terminando, embora parecesse que jamais acabaria.

 Mas esperem para saber o que ocorreu a partir de então...